É melhor esquecer a estabilidade que busca na vida!

Você sente que precisa de estabilidade na sua vida? Se sente desprotegido em épocas de crises e instabilidade política e financeira e gostaria de se sentir mais seguro? Ou se sentiu frustrado depois de ter tentando todos os esforços em busca de algo, mas sem conseguir alcançar?

Nesse texto vou falar sobre segurança, estabilidade e assuntos correlatos, tudo de um ponto de vista psicológico – no sentido de que essa segurança que busca não é a física.

O que vou fazer aqui é misturar um livro que acabei de ler com as minhas vivências e opiniões.

O livro se chama “A sabedoria da insegurança”, do Allan Watts. Apenas para você entender, a base filosófica do livro é o taoísmo, o qual nos ensina viver uma vida no agora, no presente, livre de inquietações, planos e também de apego ao passado.

Esse livro está muito alinhado com o que acredito e, cada vez mais, busco praticar.

Esse tipo de segurança sobre o qual estamos falando é principalmente espiritual e psicológico. Para existir, os seres humanos precisam de subsistência mínima em termos de comida, bebida e vestimenta – desde que se entenda, contudo, que isso não vai durar indefinidamente. Mas, se a garantia de subsistência mínima por sessenta anos apenas começasse a satisfazer o coração das pessoas, os problemas humanos equivaleriam a bem pouco.

Eu sempre busquei a estabilidade ao extremo em minha vida, o que se reflete em uma rigidez e tentativa de controle sobre tudo. Hoje, vejo a utopia desse desejo, pois é impossível esse controle. Por outro lado, entendo que o processo não é 100% consciente, pelo contrário.

Ultimamente, contudo, tenho aprendido a viver de forma diferente. Hoje não tenho mais um salário mensal, como nos 9 anos antes quando era servidor público; tampouco estabilidade de qualquer coisa. Não tenho uma rotina definida, apesar de continuar trabalhando. Por outro lado, o meu senso de segurança e estabilidade está muito bem, obrigado! rsrs…

Em outras épocas, isso seria motivo para sérias preocupações da minha parte, mas hoje é apenas resultado das escolhas conscientes que fiz na vida.

O reflexo disso é uma vida mais leve, menos preocupada, embora não ‘largada’, como possa parecer.

Pra eu chegar até aqui foi um processo longo no qual tive que aprender a abrir mão de muita coisa, muito mais internamente do que no mundo físico. Contudo, na maior parte do tempo foi ‘eu comigo mesmo’, o que torna o processo mais lento.

É um processo repleto de paradoxos, pois muitas vezes eu tentei fazer coisas que achava que estariam me ajudando, quando na verdade estavam potencializando o processo de me fazer manter o controle.

E esse ponto ‘paradoxal’ você já começa a entender aqui na introdução do livro:

Sempre fui fascinado pela lei do esforço contrário. Às vezes, eu a chamo de “lei do avesso”. Quando tentamos permanecer na superfície, afundamos; mas quando tentamos afundar, boiamos na água. Quando seguramos a respiração, perdemos o ar – o que imediatamente faz pensar em um dito antigo e muito negligenciado: “Pois quem quiser salvar sua vida vai perdê-la”

Essa ‘lei’ também é chamada de ‘lei do efeito reverso ou contrário’. Já passou por isso? Quer muito algo e não consegue? Ou quer parar de se sentir daquela forma, e parece que quanto mais se esforça, pior fica?

No meu caso eu vejo que quanto mais se queria controlar alguma coisa, algum resultado, pior ficava. Quando eu soltava as rédeas, inclusive da expectativa, acabava sendo surpreendido.

Primeiro porque essa vontade de controle parte justamente da insegurança, e nunca iremos nos sentir seguros tentando controlar porque é impossível controlar certas coisas.

A solução passa por saber a raiz da insegurança e como lidar com ela.

A montanha me ensina muito sobre abrir mão do controle. Isso porque quando se está na montanha tudo é muito imprevisível: o tempo; a sua reação física e emocional; a da equipe…

Lá não tem outra solução senão se entregar ao processo de subida e viver cada momento, lidar com cada situação que aparecer no momento.

O que está, portanto, no cerne da sensação de estabilidade?

…a frustração de sempre ter que buscar um bem futuro em um amanhã que nunca chega, e em um mundo onde tudo se desintegra, leva os seres humanos a uma atitude de “Afinal, para que serve isso?”

Para manter esse “padrão”, a maioria de nós se dispõe a viver de uma maneira que consiste em fazer trabalhos que são um tédio, a fim de conquistar uma possibilidade de aliviar esse tédio durante intervalos de prazer caro e frenético. Esses intervalos são tidos como a vida real, o objetivo real por trás do mal necessário que é o trabalho. Ou imaginamos que a justificação para esse trabalho é a criação de uma família que vai continuar fazendo o mesmo tipo de coisa para criar outra família… e assim ad infinitum.

Esse último ponto sempre me intrigou: viver uma vida que não se quer viver; ter momentos de lazer para conseguir suportar viver a vida que não se quer ter; ter mais dinheiro para mais momentos de prazer, o que obriga a viver mais um pouco como não se quer. É um ciclo que não fecha a conta!

Por uma fase da vida eu achei que seria uma utopia sair desse ciclo, afinal de contas está aí, ‘todo mundo’ vive assim, faz parte do sistema.

Hoje eu não só acredito que é possível como consegui sair desse ciclo e dessa penúria que criamos pra nós mesmos, simplesmente por ‘seguir o fluxo’.

E qual é a pior parte de estar nesse ciclo? Ele nos afasta do agora, do presente, uma vez que estamos sempre em busca do futuro, da ‘terra prometida’.

Na verdade, manter-se nessa busca atrás do próprio rabo cria um outro ciclo dentro de nós, pois vamos passar a vida desejando estar naquela posição, ou ter aquele carro, ou salário, ou XXXXXX. “Quando chegar lá, aí sim…”

Mas quando chega, você percebe que não era bem o que você esperava, então, passa a jogar mais energia nesse ‘futuro’ e alimenta ainda mais o processo.

E aqui não se trata de parar de desejar coisas ou de querer mais, pois acredito que isso está intrínseco a nossa vida. Vejo que a questão é mudar o significado dado a essa busca, mas não uma mudança cognitiva e racional, e sim profunda que possibilita gerar uma paz de espírito.

Quando saímos do ciclo, ainda continuamos ‘querendo mais’, embora de uma forma mais harmônica consigo mesmo, mais pacífica, menos ‘pra ontem’ e mais curtindo o processo.

O senso de segurança também é modificado…

 

No fim das contas, o futuro não tem muito significado nem importância a não ser que, mais cedo ou mais tarde, se torne o presente. Dessa forma, fazer planos para um futuro que não vai se tornar presente não é muito mais absurdo que fazer planos para um futuro que, quando chegar até mim, vai me encontrar “ausente”, com o olhar perdido e distante, em vez de fixo nos olhos dele.

         Viver em prol do futuro e querer controla-lo, além de nos fazer permanecer nesse ciclo em busca do próprio rabo, nos tira do momento que realmente importa e existe, que é o agora.

         Como ficamos inseguros frente ao futuro, que nunca chega pra tranquilizar nossas agonias, buscamos a estabilidade, um pedaço de boia no meio do mar, mas que ao menos esteja ancorado em algum lugar.

Só que a verdade verdadeira é que:

A1: essa estabilidade não existe, ainda em lugares supostamente estáveis. Em 2007 se você perguntasse a algum corretor de Wall Street sobre ‘crise’, eles ririam da sua cara lembrando da ‘crise’ dos milhões de dólares que os asseguravam. No ano seguinte, em 2008, muitos estavam se jogando de prédios quando a crise veio. // Tem gente que busca estabilidade no serviço público, que é apenas um projeto de estabilidade. Quantos servidores ficam sem receber dinheiro quando o Estado quebra (ex.: Rio de Janeiro…)? E outra: a Constituição permite, em alguns casos, a ‘demissão’ de servidores por questões econômicas (por favor, não quero começar aqui uma discussão sobre quando é ou não permitido. Se tiver o incomodado, que ótimo, olhe pra isso pois é a sua insegurança gritando dentro de você, pedindo uma ‘boia’).

A2: temos muuuuito menos controle REAL do que nossa mente nos leva a acreditar. Quanto mais cedo você conseguir internalizar isso, te garanto por experiência própria, melhor vai se sentir consigo mesmo. Com base nisso, o ideal é abrir mão de QUERER controlar, e focar apenas no que depende de si mesmo. As suas ações, o seu pensamento, as suas emoções, o que você emana para o Universo, sim, sobre isso temos controle, mas não sobre os resultados. A física quântica nos ensina diariamente que o mundo não é cartesiano…

A3: viver no futuro nos afasta do presente, logo, inviabiliza qualquer desejo de plenitude que você idealizou sentir na vida. Logo, volte-se para o aqui e agora, respire, seja grato, busque contentamento pelo que já tem, ainda que queira mais.

Vivendo para o futuro o tempo todo, perdemos contato com a fonte, com o centro da vida e, como resultado, toda a magia de nomear e pensar entrou em um colapso temporário.

É por isso que a civilização moderna é, em quase todos os aspectos, um círculo vicioso. Sua fome é insaciável porque seu estilo de vida a condena à frustração perpétua. Como vimos, a raiz dessa frustração está em viver para o futuro, e o futuro é uma abstração, uma intervenção racional na experiência, que existe apenas para o cérebro. A “consciência primária”, a mente básica que conhece a realidade em vez de conhecer ideias sobre ela, não conhece o futuro. Vive ancorada no presente e não percebe nada além do que está acontecendo neste momento. O cérebro engenhoso, no entanto, olha para aquela parte da experiência presente chamada memória e, ao estudá-la, se capacita a fazer previsões. Essas previsões são, relativamente, tão precisas e confiáveis (por exemplo, “todo mundo morre”) que o futuro toma uma grande medida de realidade – tão grande que o presente perde o valor.

Pois esse fluxo de estímulos é projetado para produzir anseios por cada vez mais do mesmo, embora em maior volume e velocidade, e esses anseios nos levam a fazer trabalhos que não têm interesse algum a não ser o pagamento – para comprar mais rádios extravagantes, carros mais lustrosos, revistas mais superficiais e televisões melhores, tudo conspirando de um jeito ou de outro para nos persuadir que a felicidade está ao alcance da mão se comprarmos cada vez mais.

O problema de verdade é que estão completamente frustradas, pois tentar agradar o cérebro é como tentar beber pelas orelhas. Dessa forma, elas estão cada vez menos capazes de prazer real, cada vez menos sensíveis às alegrias mais agudas e sutis da vida que são, de fato, extremamente comuns e simples.

Se continuarmos a viver para o futuro e a fazer com que o principal trabalho da mente seja prever e calcular, o ser humano pode acabar se tornando o apêndice parasitário de uma massa de engrenagens.

O que precisa ficar claro é que o que nos faz desejar a segurança é a nossa mente insegura, ao mesmo tempo em que a segurança que buscamos pode sim ser encontrada através dela mesma. Paradoxal, mas é. Quando mais aceitamos esse cenário e começamos a enxergar que tá tudo bem ser assim, mais seguros passamos a nos sentir.

De todo modo, Allan Watts traz um vislumbre que, embora não seja a resposta que busque, começa a clarear a visão:

A arte de viver esse dilema não é boiar despreocupadamente por um lado, nem ficar com medo e se agarrar ao passado e ao conhecido por outro. Consiste em ser completamente sensível ao momento, em encará-lo como totalmente novo e único, em ter a mente aberta e receptiva ao máximo.

Trata-se apenas de consciência da experiência presente e de perceber que não é possível defini-la nem se separar dela. A única regra é: “Veja!”

Sobre o dilema, ele diz:

Precisa ser óbvio, desde o início, que é contraditório querer estar perfeitamente seguro em um universo cuja natureza em si é momentaneidade e fluidez.

Mal podemos começar a levar o problema em conta, a não ser que fique claro que ansiar por segurança é em si dor e contradição e que, quanto mais insistimos nisso, mais doloroso fica. Isso é verdade, não importa em que forma de segurança se pense.

Xingar um desejo não acaba com ele. O que temos que descobrir é que não existe segurança, que procurar segurança é doloroso e que, quando imaginamos que encontramos, não gostamos do resultado.

Entender que não existe segurança é muito mais do que concordar com a teoria de que tudo muda, mais ainda que observar a transitoriedade da vida. A noção de segurança é baseada no sentimento de que há algo permanente dentro de nós, algo que perdura ao longo de todos os dias e de todas as mudanças da vida.

Já caminhando pro final, quero dizer que a ideia do texto foi, de alguma forma, falar com esse seu lado que talvez se sinta inseguro e busque estabilidade e dizer pra ele: “eu sei o que você sente e não é bem por aí o caminho!”.

Esse é um texto inacabado, pois ainda existem diversas ideias que podemos trabalhar aqui, mas que por ora seriam demais, já bastam os cutucões de hoje.

Se você for como eu, isso tudo o que leu só te deixou mais confuso, perdido e inseguro, e se isso for verdade (você está se sentindo assim), que bom, pois você está no caminho certo e também busca uma resposta.

Por outro lado, haverá aqueles para quem nada disso faz sentido e também está legal isso, pois não tem que ‘ser assim’ pra todo mundo.

Qualquer que tenha sido a sua situação, caso queira comentar e compartilhar como foi e é pra você, vai ser muito bem-vindo.

Por fim, deixo uma reflexão do próprio Watts:

Há quanto tempo os planetas estão circundando o sol? Eles estão indo a algum lugar, e aumentam a velocidade cada vez mais para chegar lá? Quantas vezes a primavera chegou na terra? Ela chega mais rápido e mais enfeitada a cada ano para garantir que vai ser melhor que a primavera passada e se apressa para ser a primavera das primaveras?

Logo, observemos a natureza, talvez o começo da resposta esteja lá!

Um comentário em “É melhor esquecer a estabilidade que busca na vida!

  1. Profe, o final falando da natureza com certeza foi uma ótima resposta para “nossas inquietações”, pois não somos nada mais do que meros animais, na natureza, nesse mundo. E nada do que possamos fazer na vida ou comprar com dinheiro acrescentará um dia a mais na nossa existência. Eu tenho me deparado com essas questões e discutido também o sentido de estar sempre pensando num futuro, esquecendo de viver o hoje e isso simplesmente não tem sentido nenhum. Estou trabalhando em acostumar com a ideia de que estamos constantemente em mudança e não faz sentido algum querer que sejamos estáticos. Obrigada pelo compartilhamento dos textos de Allan Watts, foi bem legal refletir sobre isso. Outro texto muito conhecido em que podemos nos inspirar nesse sentido também é aquele tirado da Bíblia que fala algo do tipo “olhe as flores do campo, elas não trabalham e nem Salomão, o homem mais rico do mundo, vestiu roupas tão bonitas como as delas…”, algo assim, então faz sentido pensar nessa relação dinheiro/ propósito/ futuro/ presente. Muito boa reflexão, eu diria que todos os concurseiros deveriam se colocar a refletir sobre isso um pouco.

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